Isabel Coutinho | EMBAIXADORA

Crescer num clique

Como fica o coração da mãe quando os filhos parecem crescer em instantes?

Publicado em 19/12/2017

Isabel Coutinho

Isabel Coutinho - Embaixadora

Colunista
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Crescer num clique

Semana passada, minha filha me surpreendeu saindo do banheiro, apreensiva, com a seguinte notícia:

 

“Mamãe, tem algumas coisa estranha com esse meu dente. Ele antes era virado para lá; agora, está virado para o outro lado”.

 

 Eu, incrédula, fui checar o acontecido, achando que era mais um dos desconfortos inexplicáveis que vem acontecendo com ela nos últimos tempos. Numa breve checagem do que estava acontecendo em sua boca, fechei o feliz diagnóstico:

 

 “Filha, seu dente está mole!

 

  Digo “feliz diagnóstico”, porque essa era uma notícia esperada há meses. Ela foi uma das últimas da escola a perder seu primeiro dentinho e, há tempos, vinha observando cabisbaixa os sorrisos banguelos dos colegas, me perguntando quando seria sua vez.

 

  “Filha, seus dentinhos demoraram para nascer. No seu aniversário de um ano, você não tinha nenhum dente na boca! Talvez você ainda tenha que esperar um pouco mais.”

 

  A ida recente a dentista confirmou o fato:

 

  “Seus dentes devem começar a cair somente daqui uns 6 meses”, disse a doutora.

 

  Compenetrada, ela então se preparou para perdê-los só daqui há um bom tempo.

 

 O sorriso que apareceu em seu rosto frente a notícia do dente mole ficou em seu rosto por vários dias. Me pediu para gravar um vídeo contando do acontecido para os avós, tios e padrinhos. Falou orgulhosa, segura, ciente de que algo grande estava por acontecer. Acompanhou uma a uma todas as felicitações que chegavam pelo Whatsapp em resposta ao vídeo dela. E passou os dias seguintes num acompanhamento constante do status do dente, com direito a visitas regulares ao espelho do banheiro e à mesma pergunta a cada dez minutos:

 

  “Mamãe, será que meu dente vai cair hoje?”

 

O dente parece ter se solidarizado com a causa dela e não enrolou muito para ficar bem molinho e convidar o pai – bem mais corajoso que a mãe – a empreender a jornada de arrancá-lo com um puxão. O ato aconteceu no sábado a noite, demorou apenas alguns segundos e fez dela uma garota orgulhosa sorrindo para câmera para mostrar o seu tão esperado sorriso banguelo.

 

 Naquela noite dormiu feliz e acordou ansiosa para checar o presente da fadinha e se ela tinha mesmo deixado seu dente de lembrança como havia pedido em bilhete escrito de próprio punho. Por sorte, ambos estava lá: as notinhas de dinheiro e o dentinho.

 

 Ao ver o presente, ficou tão feliz que até esqueceu da vaga desconfiança que pairou sobre sua cabecinha no dia anterior:

 

 “Mamãe, será que a fadinha do dente existe mesmo ou são os pais que colocam o dinheirinho para as crianças quando elas perdem os dentinhos?”

 

 No mesmo fim de semana, outro fato significativo aconteceu: ela aprendeu andar de bicicleta sem as rodinhas de segurança.

 

 Da mesma forma que o dente, essa foi uma conquista bastante esperada. Por meses, treinou dirigir sua bicicleta, ainda com rodinhas, para se aprimorar nas curvas e nas paradas até que o pai desse o veredicto de que ela estaria apta para tirá-las. Finalmente, esse dia chegou e ela, toda animada, saiu de casa decidida a se libertar das ditas cujas.

 

 A tarde foi longa para ela e também para meu marido, que correu incansável junto ela durante todo o tempo. Ele ficou exausto, com as costas doendo, mas ela conseguiu! Horas depois, recebi um vídeo dela feliz e orgulhosa dirigindo sua bicicleta cor-de-rosa com a segurança de quem fazia isso há anos.

 

 E foi assim, como num clique que, em apenas um final de semana, tudo isso aconteceu para ela. Com uma rapidez impressionante, minha filha parece ter crescido alguns anos em apenas alguns instantes. De uma hora para outra, uma janela se abriu em sua boca e outra em seus pés e ela me olhou de um modo diferente, como se já não fosse a mesma menininha de minutos atrás.

 

 Depois desse final de semana, confesso que fiquei um tanto atarantada ao observar tamanha a naturalidade com que ela deu seu passo adiante e se apropriou do status recém conquistado. Como pode tudo acontecer tão rápido para ela? Me senti como numa corrida de carros, daquelas de desenho animado, onde um carro ultrapassa o outro com tanta velocidade que o deixa pra trás girando na pista, desnorteado, tonto e com dificuldades de retomar o seu caminho.

 

 Nesse momento desejei que, como num clique, meu coração pudesse acelerar e ser capaz de caminhar junto, passo a passo, com a evolução dela, sem sentir tanto aperto e tanta dor ao vê-la crescer e ganhar o mundo. Olhando para ela, no entanto, vejo que isso é algo impossível de se realizar. Ela já me ultrapassou faz tempo e me mostra, a cada dia, que (felizmente!) não têm a menor intenção de parar.

 

 Pois não é que, no dia seguinte à perda do dente, a flagrei olhando no espelho, examinando seu sorriso e já me perguntando ansiosa:

 

 “Mamãe, quando você acha que meu segundo dente vai cair?

 

 “Não sei filha, não sei,” respondi pensativa. Não sei como vou conseguir acompanhar tanta sede de crescer...

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Sobre o colunista

Isabel Coutinho

Psicóloga formada pela USP, já trabalhou como publicitária e pesquisadora de mercado. É mãe de dois filhos e autora do livro "Mãe em construção - Reflexões, angústias e desafios" (Dash Editora). Atualmente, se dedica a estudar e escrever sobre os desafios de ser mãe nos dias de hoje.

"Meu desejo é que, em nossa sociedade, se abra espaço para uma maternidade menos idealizada, com menos cobranças, mais compreensão e mais humanidade. Uma maternidade onde os erros, imperfeições, dificuldades, frustrações e desafios possam coexistir com os sentimentos de amor e felicidade".