Isabel Coutinho | EMBAIXADORA

Mãe desnecessária

“Mamãe, pode deixar, eu vou sozinho. Me dá um beijo e vai, tá?”, assim se despediu meu filho hoje, partindo decidido para encontrar sua nova professora.

Publicado em 20/09/2017

Isabel Coutinho

Isabel Coutinho - Embaixadora

Colunista
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Mãe desnecessária

As vésperas de completar 41 anos, me vi caminhando com o coração apertado de volta para casa, depois de deixar meu filho mais novo na escola. O tempo, este que nunca pára, escolheu a manhã de hoje para me acompanhar de perto e lembrar-me das várias facetas de sua existência. De um lado, sua sabedoria me convidou a lembrar dos benefícios de um viver mais maduro e menos ansioso. Por outro, seu passar implacável me pesou sobre os ombros, me fez encolher e desejar que ele diminua seu passo.

 

“Mamãe, pode deixar, eu vou sozinho. Me dá um beijo e vai, tá?”, assim se despediu meu filho hoje, partindo decidido para encontrar sua nova professora.

 

Faz apenas três dias que as aulas começaram! E ele, firme, não se acovardou frente aos desafios da nova escola, agora escola de menino grande, sem os cuidados e paparicos da anterior.

 

Descartada, não me rendi e fiquei a observá-lo de longe até ele desaparecer atrás da porta, com sua mochilinha de Homem Aranha (muito maior que os seus ombros pequeninos), caminhando firme em direção a sua sala de aula.

 

Ele foi, sem olhar para trás. E eu fiquei ali, no pátio, sozinha com minhas lágrimas, um tanto atônita diante do menino grande que ele, para quem puder ver, começa a se tornar.

 

“Mas e quando ele ainda pede colo, não consegue segurar o xixi e pede que eu lhe dê comida na boca?”, tentei argumentar. “Ele ainda não sabe se quer crescer ou não!”, continuei. Mas a frase de uma amiga que se dispôs a me ouvir depois do ocorrido, colocou um sonoro ponto final na questão:

 

“O que você quer que ele seja: um menino ou um bebê?”

 

Não precisei responder.

 

A confusão que ele, por vezes, tem mostrado não é dele, mas sim um reflexo da minha. No meu agir, envio mensagens contraditórias o tempo todo. Em coisas bobas, do dia a dia. Como hoje quando desejei que ele olhasse para trás buscando um último olhar encorajador. Como quando vou colocar a mesa do jantar e fico em dúvida se escolho para ele um garfo ou uma colher.

 

Há dias que me convenço que já está na hora dele crescer e comer com garfo. Até faca, arrisco nos momentos de mais coragem! Em outros, no entanto, tenho certeza de que ele ainda não está preparado para os objetos mais cortantes e desafiadores e que ele precisa mesmo é de uma colher redonda, inócua e familiar.

 

Meu menino cresceu e deixou bem claro no dia de hoje ao recusar a minha companhia. Meu menino está me pedindo que eu reconheça isso e que lhe dê espaço para seguir seu caminho, para ganhar independência, para experimentar, para cair, se machucar e saber se levantar e cuidar de sua própria dor. Mas para mim, esse tem sido um pedido difícil de aceitar...

 

Filho meu, não se deixe levar pela confusão de sua mãe que, apesar de “madura”, não consegue evitar de sentir medo daquilo que passa e não volta jamais; daquilo que virá e está tão fora do que eu posso imaginar ou controlar. O mesmo tempo que me ameaça e me envelhece é aquele que te desafia a aprender, a experimentar, a arriscar, a desejar mais e mais. É o mesmo tempo que te convida a viver, com tudo aquilo que a vida tem de bom e desafiador!

 

Quando vejo que você aceita esse convite com vontade e coragem, meu peito enche de orgulho desse meu menino de sorriso fácil e temperamento forte. Por outro lado, fico angustiada quando me dou conta que a equação se inverte um pouco a cada dia que vejo você dar seus passos de menino para longe de mim. Conforme o relógio anda para frente, você se distancia e precisa um pouco menos de mim. Conforme o relógio anda para frente, mais difícil é para mim estar perto de você.

 

Fico aqui pensando se o tempo não está, como mestre que é, me chamando a atenção para uma outra forma de me relacionar com você. Para uma outra forma de ser sua mãe. Porque você já não precisa de mim inteiramente para você, daquela forma intensa e visceral que necessitam os bebês. Você até precisa que eu te acompanhe. Só que agora, mais de longe, sabendo recuar quando você pedir, avançar quando você sinalizar, abrir os braços quando você necessitar, mas retraí-los também quando você assim o quiser.

 

Tenho que confessar que talvez eu demore um pouco, meu filho, para conseguir ser essa mãe mais distante e desapegada. Eu sou um tanto teimosa, cabeça dura e demoro um pouco a me acostumar com essas novidades que a vida anda gostando de me apresentar. Mas prometo que eu vou tentar escutar com carinho esse conselho do sábio mestre.

 

Enquanto isso, meu lindo, te peço paciência com essa sua mãe que, do alto de seus 41 anos, ainda tem medo de se tornar desnecessária, por mais que a teoria diga que esse é o melhor caminho que uma mãe pode percorrer...

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Sobre o colunista

Isabel Coutinho

Psicóloga formada pela USP, já trabalhou como publicitária e pesquisadora de mercado. É mãe de dois filhos e autora do livro "Mãe em construção - Reflexões, angústias e desafios" (Dash Editora). Atualmente, se dedica a estudar e escrever sobre os desafios de ser mãe nos dias de hoje.

"Meu desejo é que, em nossa sociedade, se abra espaço para uma maternidade menos idealizada, com menos cobranças, mais compreensão e mais humanidade. Uma maternidade onde os erros, imperfeições, dificuldades, frustrações e desafios possam coexistir com os sentimentos de amor e felicidade".